Conecte-se conosco

Brasil

Vorcaro pode ter delação rejeitada caso não devolva R$ 60 bilhões, avaliam investigadores

SVT Brasil

Publicado

em

Rubens Cavallari

As negociações para um possível acordo de delação premiada envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, enfrentam forte resistência de investigadores da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo fontes ligadas às apurações, a proposta apresentada pelo ex-banqueiro pode ser recusada caso ele não apresente um plano mais rápido e robusto para devolver os prejuízos estimados em cerca de R$ 60 bilhões.

De acordo com pessoas que acompanham o caso, Vorcaro sugeriu restituir aproximadamente R$ 40 bilhões ao longo de dez anos. A proposta, no entanto, desagradou integrantes dos órgãos responsáveis pela investigação, tanto pelo valor abaixo do prejuízo estimado quanto pelo prazo considerado excessivamente longo.

Investigadores sustentam que a legislação brasileira não permite flexibilização do valor do dano causado, diferentemente do que ocorre em alguns países, como os Estados Unidos. Além disso, autoridades avaliam que acordos prolongados podem repetir problemas registrados em colaborações firmadas durante a Operação Lava Jato e em negociações envolvendo a J&F, quando empresas passaram posteriormente a contestar pagamentos e reduzir obrigações na Justiça.

O ministro do STF André Mendonça teria manifestado a advogados de Vorcaro preocupação com o prazo de dez anos proposto. Segundo relatos, o magistrado entende que seria mais aceitável um valor inferior aos R$ 60 bilhões, desde que a devolução ocorra em um período menor.

Outro fator que aumenta a desconfiança das autoridades é o fato de o Banco Master já ter sido liquidado. Sem uma instituição em funcionamento gerando receita, investigadores querem que Vorcaro detalhe onde estão seus recursos financeiros e patrimônio, incluindo possíveis ativos em paraísos fiscais, fundos de investimento, imóveis, aeronaves e obras de arte.

Considerado pelas autoridades como o principal articulador do esquema investigado, Vorcaro deve enfrentar critérios mais rígidos na negociação da colaboração premiada. Dados divulgados até o momento apontam que os impactos financeiros da quebra do Banco Master já superam R$ 57 bilhões.

Somente os valores que deverão ser pagos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) para ressarcir clientes são estimados em R$ 51,8 bilhões. O prejuízo total, contudo, ainda não foi completamente calculado.

Delação segue em análise

As tratativas para o acordo de colaboração estão sendo conduzidas pela PGR e pela Polícia Federal. Os anexos da delação foram entregues pela defesa de Vorcaro no último dia 6 e ainda passam por avaliação das autoridades.

Os documentos apresentam relatos sobre supostas irregularidades atribuídas ao ex-banqueiro e a outros envolvidos. Somente após essa análise será discutida a possibilidade de benefícios penais e as condições para devolução de recursos.

A defesa de Daniel Vorcaro não comentou o posicionamento dos investigadores sobre a restituição dos valores.

Autoridades apontam fragilidade em informações apresentadas

Além da questão financeira, investigadores avaliam que o conteúdo entregue até agora não trouxe fatos suficientemente novos ou contundentes em relação ao material já reunido pela Polícia Federal.

Nos bastidores, integrantes da investigação afirmam que as recentes fases da Operação Compliance Zero aumentam a pressão para que Vorcaro apresente informações inéditas e provas robustas capazes de justificar a homologação da delação pelo STF.

A percepção entre investigadores é de que a PF tem avançado nas apurações mesmo sem depender de acordos de colaboração. Outros investigados também estariam buscando negociar com as autoridades, entre eles Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi preso na operação e mudou recentemente sua equipe de defesa.

Internamente, integrantes da PGR defendem critérios mais rigorosos para novos acordos de delação, exigindo relatos detalhados e provas mais consistentes do que os apresentados em colaborações firmadas durante a Lava Jato.

Investigadores também afirmam que pretendem evitar acordos semelhantes ao firmado por Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, sob o entendimento de que o militar apresentou poucas informações inéditas em relação às provas já existentes.

Diante disso, autoridades avaliam que, se Vorcaro apenas repetir fatos já conhecidos ou citar episódios que constam nos materiais apreendidos pela PF, sua delação corre sério risco de ser rejeitada.

Prisões e mudança de estratégia

Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro do ano passado, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, enquanto tentava embarcar para o exterior. A Polícia Federal alegou suspeita de fuga do país, enquanto o empresário afirmou que viajaria para buscar investidores interessados na compra do Banco Master.

Ele foi libertado dez dias depois, mas voltou a ser preso em 4 de março durante nova fase da Operação Compliance Zero, que também atingiu servidores do Banco Central. Atualmente, está detido na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal.

Até recentemente, a defesa do ex-banqueiro descartava qualquer possibilidade de delação premiada. A estratégia anterior era contestar as acusações diretamente no processo judicial, negando envolvimento em fraudes e crimes financeiros.

Com a mudança de postura, Vorcaro agora deverá admitir participação em condutas criminosas, detalhar os fatos investigados e apresentar provas que sustentem as informações fornecidas às autoridades.

Clique para comentar

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tendência