A operação Polícia Federal conhecida como Compliance Zero completou seis meses nesta segunda-feira (18), após uma série de fases que expuseram um esquema investigado como uma das maiores fraudes já identificadas contra o Sistema Financeiro Nacional. As apurações apontam para um prejuízo potencial de dezenas de bilhões de dólares e envolvem suspeitas de manipulação financeira, lavagem de dinheiro, intimidação e relações com agentes públicos e políticos.
As investigações têm como principal alvo o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a Polícia Federal, ele seria o líder do esquema investigado. As apurações começaram no início de 2024, após solicitação do Ministério Público Federal.
Desde então, a Justiça autorizou 21 prisões temporárias e preventivas, além da expedição de 116 mandados de busca e apreensão. Também houve bloqueios e sequestros de bens que somam aproximadamente R$ 27,71 bilhões. As ações ocorreram na Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal.
Primeira fase revelou suspeita de créditos sem lastro
A primeira etapa da operação foi deflagrada em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, Daniel Vorcaro foi preso junto com outros investigados, entre eles o ex-CEO e sócio do Banco Master, Augusto Ferreira Lima.
A PF investigava a suposta criação de carteiras de crédito sem garantia financeira real. De acordo com as investigações, esses ativos teriam sido vendidos ao Banco de Brasília e posteriormente substituídos após fiscalização do Banco Central do Brasil.
Na mesma fase, a Justiça determinou o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor financeiro Dario Oswaldo Garcia.
A operação ocorreu um dia após a Fictor Holding Financeira anunciar intenção de adquirir o Banco Master com participação de investidores dos Emirados Árabes Unidos. Meses antes, o BRB havia tentado comprar o Master por cerca de R$ 2 bilhões, mas a negociação foi barrada pelo Banco Central.
Com o avanço das investigações, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial de empresas do conglomerado Master, incluindo o Banco Master de Investimento, Letsbank, Master Corretora de Câmbio, Will Financeira e Banco Pleno. Também foi decretada a indisponibilidade de bens de controladores e ex-administradores do grupo.
Até agora, o Fundo Garantidor de Créditos desembolsou cerca de R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes ligados ao Grupo Master, Will Bank e Banco Pleno. O FGC atua para garantir depósitos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em casos de intervenção ou liquidação bancária.
Segunda fase investigou lavagem de dinheiro
Em 14 de janeiro, o Supremo Tribunal Federal autorizou a segunda fase da Compliance Zero, com cumprimento de 42 mandados de busca e apreensão.
Por decisão do ministro Dias Toffoli, mais de R$ 5,7 bilhões em bens dos investigados foram bloqueados. Durante a operação, o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, chegou a ser detido ao tentar embarcar para os Emirados Árabes Unidos, mas acabou liberado posteriormente.
Entre os alvos das buscas também estavam o empresário Nelson Tanure e o ex-presidente da gestora Reag Investimentos, João Carlos Mansur.
Terceira fase apontou suposta milícia particular
Na terceira etapa da operação, realizada em 4 de março, Daniel Vorcaro voltou a ser preso após decisão judicial. Segundo a Polícia Federal, mensagens encontradas no celular do banqueiro indicariam discussões sobre ações violentas contra ex-funcionários e até uma possível simulação de assalto contra o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo.
As investigações apontam ainda que Vorcaro teria mantido um grupo utilizado para intimidar desafetos. O núcleo seria comandado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de “Sicário”.
Mourão foi preso em Belo Horizonte e levado para a Superintendência da Polícia Federal. Horas depois, foi encontrado desacordado na cela. A PF informou que ele tentou tirar a própria vida. Apesar de ter sido socorrido e encaminhado a um hospital, não resistiu.
Além das novas prisões, a terceira fase também cumpriu 15 mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 22 bilhões em bens e contas de investigados.