Os Estados Unidos voltaram a mirar o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, ao afirmar que a ferramenta criada pelo Banco Central recebe tratamento privilegiado e prejudica empresas norte-americanas que atuam no setor de pagamentos digitais. A acusação faz parte de um relatório divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), resultado de uma investigação iniciada durante o governo de Donald Trump sobre supostas práticas comerciais consideradas desleais por parte do Brasil.
No documento, autoridades americanas argumentam que o Pix recebe vantagens regulatórias que não são oferecidas a concorrentes estrangeiros. Entre as empresas citadas como afetadas estariam gigantes do setor financeiro, como Mastercard, Visa e WhatsApp Pay. O relatório também questiona a atuação do Banco Central, apontando que a instituição exerce simultaneamente os papéis de regulador e operador do sistema, o que, na avaliação dos EUA, poderia gerar conflito de interesses.
A investigação destaca ainda que instituições financeiras com mais de 500 mil contas são obrigadas a disponibilizar o Pix, além de garantir destaque semelhante ao de outros meios de transferência em aplicativos e plataformas bancárias. Para os americanos, essas exigências aumentariam os custos das empresas estrangeiras e fortaleceriam a posição do sistema brasileiro no mercado.
O relatório faz parte de um conjunto de análises que poderá resultar em medidas comerciais contra o Brasil. Entre as propostas está a aplicação de uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano. O governo brasileiro e empresas envolvidas poderão apresentar manifestações até 15 de julho, antes de uma decisão final dos EUA.
Especialistas brasileiros contestam as acusações. O economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp, avalia que a ofensiva busca proteger os interesses de grandes empresas americanas do setor de pagamentos eletrônicos. Segundo ele, o Pix representa uma alternativa pública, gratuita e eficiente que vem reduzindo a dependência de sistemas privados tradicionalmente dominados por companhias estrangeiras.
O professor ressalta que o Pix não impede a operação de cartões de crédito ou outros meios de pagamento, mas concorre diretamente com eles ao oferecer uma solução sem tarifas para grande parte das transações. Ele também observa que modelos semelhantes vêm sendo adotados em outros países, ampliando a concorrência com redes privadas de pagamento.
A disputa envolvendo o Pix teve início em julho de 2025, quando os Estados Unidos abriram uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras. Além da concorrência direta com cartões de crédito e plataformas digitais, analistas apontam que o crescimento do Pix em operações internacionais também despertou preocupação entre empresas americanas. Veículos especializados em economia, como a Bloomberg, informaram que bandeiras de cartões e grandes empresas de tecnologia teriam pressionado o governo dos EUA a adotar medidas contra o sistema brasileiro.