O Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou públicos, na sexta-feira (30), mais de 3 milhões de páginas relacionadas à investigação contra o bilionário Jeffrey Epstein, acusado de comandar um amplo esquema de exploração sexual de menores. O material reúne documentos judiciais, e-mails, imagens e vídeos que detalham o funcionamento da rede, mencionam personalidades conhecidas e incluem referências ao Brasil.
Contexto das acusações
Segundo as autoridades, Epstein abusou sexualmente de dezenas de meninas menores de idade entre 2002 e 2005, pagando quantias em dinheiro para que fossem a imóveis de sua propriedade. As vítimas também eram coagidas a recrutar outras garotas. Investigações apontam que mais de 250 menores teriam sido exploradas em residências do bilionário em Nova York, Flórida, Novo México e em uma ilha particular no Caribe.
A primeira apuração ocorreu em 2005, após denúncias em Palm Beach (Flórida). Epstein alegou que os encontros eram consensuais e que acreditava que as jovens eram maiores de idade. Em 2008, firmou acordo judicial, declarou-se culpado por exploração de menores, cumpriu 13 meses de prisão e pagou indenizações. Em 2019, um juiz considerou o acordo ilegal; no mesmo ano, Epstein foi novamente preso e acusado criminalmente. Os promotores sustentaram que sua fortuna, aviões privados e conexões internacionais poderiam facilitar uma fuga.
Morte e desdobramentos
Em agosto de 2019, Epstein foi encontrado morto na prisão. A autópsia concluiu suicídio. Dois dias antes, ele havia assinado um testamento com patrimônio estimado em US$ 577 milhões. Com a morte, as acusações diretas foram arquivadas, mas procuradores afirmaram que outros envolvidos poderiam ser responsabilizados, enquanto advogados das vítimas mantiveram ações por indenização.
Documentos de 2024 e o processo de difamação
O caso ganhou novo fôlego em 2024, quando documentos judiciais revelaram mais de 150 nomes citados. Os arquivos integram um processo de difamação movido por Virginia Giuffre contra Ghislaine Maxwell, ex-namorada de Epstein, condenada por recrutar menores para o esquema.
Entre os citados estão o ex-presidente Bill Clinton e o príncipe britânico Príncipe Andrew. Em depoimento de 2016, uma vítima afirmou que Epstein disse que Clinton “gostava de jovens”. Um porta-voz confirmou viagens no avião do bilionário, mas negou qualquer envolvimento com crimes. Já Andrew negou acusações; apesar de não responder criminalmente, perdeu títulos reais e fechou acordo civil com Giuffre em 2023, sem admitir culpa.
Trump nos arquivos
O atual presidente dos EUA, Donald Trump, aparece em diversas passagens. Há registro de uma denúncia de estupro envolvendo uma menor, posteriormente retirada em 2016; Trump nega as acusações. Ele também afirma ter rompido relações com Epstein após o escândalo, embora seja público que mantiveram proximidade nos anos 1990 e 2000. Registros anteriores indicam voos na aeronave de Epstein e uma suposta carta de aniversário enviada ao bilionário no início dos anos 2000.
Brasil citado nos arquivos
Os documentos mencionam o Brasil em diferentes contextos. Há referências a um “agente” que teria facilitado o aliciamento de menores durante viagens de Epstein ao país. A BBC informou que ao menos quatro brasileiras, incluindo adolescentes, teriam participado de uma festa em uma das casas do bilionário nos EUA; reportagens anteriores falam em pelo menos 50 brasileiras que passaram pela mansão. E-mails de 2016 também indicam planos de compra de agência de modelos, criação de concurso de beleza com investimento de US$ 500 mil e interesse em adquirir revista de moda no Brasil.
Os papéis ainda citam Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva em trocas de mensagens, sem relação com o escândalo sexual.
Pressão por transparência
Durante a campanha de 2024, Trump prometeu divulgar arquivos sigilosos do caso. Em fevereiro de 2025, o governo liberou novos documentos; a então procuradora-geral Pam Bondi afirmou que uma suposta lista de clientes estava sob revisão. Posteriormente, o Departamento de Justiça declarou não haver provas dessa lista, frustrando apoiadores e alimentando disputas políticas. A pressão aumentou até que, em novembro, Trump sancionou uma lei do Congresso determinando a divulgação integral dos arquivos da investigação.