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Política

Prisão de Bolsonaro eleva tensão entre Brasil e EUA em plena crise diplomática

SVT Brasil

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em

FOTOS: REPRODUÇÃO DA INTERNET

A prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes na última segunda-feira (4), ocorre em um momento delicado nas relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump.

A medida foi tomada dias após o início de tentativas de aproximação entre os dois países. Representantes brasileiros haviam recebido sinais positivos de Washington com vistas a negociar a revogação ou redução das tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, impostas por Trump no dia 9 de julho.

Em 30 de julho, o chanceler brasileiro Mauro Vieira se reuniu pela primeira vez com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Três dias depois, Trump declarou publicamente que Lula poderia contatá-lo a qualquer momento, sinalizando abertura ao diálogo.

No entanto, a nova decisão do STF contra Bolsonaro provocou forte reação do governo norte-americano. O Escritório para o Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, por meio de uma publicação na rede X (antigo Twitter), condenou a decisão de Moraes e exigiu liberdade de expressão para Bolsonaro:
“Restringir ainda mais a capacidade de Bolsonaro se defender publicamente não é do interesse público. Os EUA responsabilizarão aqueles que encorajarem tal conduta.”

Apesar do posicionamento duro, oficialmente o governo brasileiro ainda evita se manifestar sobre o episódio. A orientação interna continua sendo evitar embates públicos que possam interferir nas negociações comerciais em andamento.

Segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil, há o entendimento de que, mesmo com a prisão domiciliar, os esforços para reverter o tarifaço devem continuar até a entrada em vigor das novas tarifas, prevista para 6 de agosto.

CONTEXTO DAS TENSÕES

O cenário atual é resultado de uma série de acontecimentos anteriores. No dia 18 de julho, Moraes havia autorizado buscas na casa de Bolsonaro e impôs diversas restrições, incluindo o veto ao uso de redes sociais e a comunicação com seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Eduardo, que está morando nos EUA, passou a advogar por sanções contra Moraes e comemorou as tarifas impostas por Trump. Em retaliação, o governo dos EUA revogou os vistos de Moraes e outros ministros do STF.

Na ocasião, Marco Rubio publicou em suas redes sociais:
“A perseguição de Moraes contra Bolsonaro ultrapassa as fronteiras brasileiras, atingindo também os Estados Unidos e violando direitos fundamentais.”

Nos dias seguintes à operação, Bolsonaro participou de eventos públicos e concedeu entrevistas. Moraes exigiu explicações, mas a defesa afirmou que ele não havia descumprido nenhuma medida. Em 24 de julho, o ministro aceitou os argumentos e suspendeu a possibilidade de prisão naquele momento.

AVALIAÇÕES E REPERCUSSÕES

Para Matias Spektor, professor da FGV-SP, as iniciativas de aproximação entre Brasil e EUA se concentraram no campo econômico. Segundo ele, a prisão domiciliar pode aumentar a pressão política dos EUA sobre o STF:
“Trump pode manter ou até ampliar sanções contra membros da Corte.”

Já Hussein Kalout, conselheiro do Cebri e professor em Harvard, acredita que, do ponto de vista comercial, a decisão judicial não impactará a negociação:
“Bolsonaro é visto como peça política passageira. O foco dos EUA está nos interesses comerciais internos.”

Jana Nelson, especialista em Relações Internacionais pela Universidade Georgetown e ex-subsecretária de Segurança e Defesa do Pentágono, tem avaliação semelhante:
“Trump já via Bolsonaro como vítima de perseguição judicial. A prisão não muda sua percepção nem altera os rumos das negociações, que sequer começaram formalmente.”

Vale lembrar que, segundo a Amcham (Câmara de Comércio Brasil-EUA), cerca de 42% das exportações brasileiras foram poupadas da tarifa, totalizando quase 700 produtos listados como exceções.

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