O Ministério Público Militar (MPM) finalizou a apuração sobre a morte do soldado Wenderson Nunes Otávio, que foi encontrado com um tiro na cabeça dentro do alojamento do 26º Batalhão de Infantaria Paraquedista, no Rio de Janeiro. A investigação descartou a hipótese inicial de suicídio, que havia sido comunicada à família, e revelou um cenário mais complexo, marcado por negligência, pressão hierárquica e tentativa de silenciamento.
Disparo acidental e omissão de comando
Segundo o MPM, o autor do disparo foi o ex-soldado Jonas Gomes Figueira, que teria manuseado uma pistola 9mm dentro do alojamento, prática recorrente segundo testemunhas. Na ocasião, Figueira teria apontado a arma para Wenderson, achando que estava descarregada, e efetuado o disparo acidental enquanto o colega calçava os coturnos.
O terceiro sargento Alessandro dos Reis Monteiro também foi denunciado por não impedir a entrada de arma de fogo no alojamento militar, contrariando normas internas de segurança.
“Era um acidente, mas ele foi proibido de falar”
Cristiana, mãe do soldado, afirmou que conhecia Figueira e o considerava como parte da família. Ela acredita que a morte foi acidental, mas se revolta com a tentativa de encobrir o caso.
“Senti que foi um acidente. Só queria que ele tivesse falado. Mas proibiram ele”, disse emocionada.
“Acidente acontece, mentir é que não”, reforçou Adilson, pai de Wenderson.
Ordem de silêncio e versão oficial de suicídio
Depoimentos de militares ao programa Fantástico revelam que o então comandante do batalhão, Douglas Santos Leite, teria reunido os soldados logo após o ocorrido para determinar que a morte fosse tratada oficialmente como suicídio. Ele também teria proibido os militares de entrarem em contato com a família da vítima.
Mensagens obtidas pelo MPM indicam que superiores tentaram rastrear quem falou com os investigadores e reforçaram a imposição de silêncio. Mesmo assim, alguns soldados decidiram romper o pacto e denunciaram o que realmente aconteceu.
“Mesmo assim, a gente falou. Porque estava errado”, disse um dos militares.
Reação da família e desdobramentos legais
Para os pais de Wenderson, a confirmação da verdade traz um certo alívio, mesmo diante da dor que continua.
“É um alívio saber que a Justiça está sendo feita. Que os responsáveis serão punidos”, disse Adriano, pai da vítima.
A defesa de Jonas Figueira se manifestou por meio de nota afirmando que ele é inocente e que a denúncia será contestada no processo judicial. Já o comandante Douglas informou que responderia por meio da assessoria do Exército.
Em nota, o Centro de Comunicação Social do Exército declarou que todas as ações do comando foram realizadas de acordo com as normas institucionais, com foco na ética, verdade e respeito à família da vítima. A instituição ainda reforçou que não houve afirmação oficial sobre as circunstâncias da morte até a conclusão das investigações.